Pneumologia

Edema Pulmonar Cardiogênico em Gatos: Aspectos Radiográficos

Edema Pulmonar Cardiogênico em Gatos: Aspectos Radiográficos

As guidelines do consenso de 2020 do American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM), estabelecem a radiografia torácica como padrão ouro para diagnóstico do edema pulmonar cardiogênico em gatos. Em cães com insuficiência cardíaca esquerda, o edema pulmonar clássico é caracterizado por opacificação alveolar simétrica e distribuição hilar ou caudodorsal. Nos gatos, entretanto, o aspecto radiográfico é descrito como muito mais variável.

Buscando mais informações sobre esse assunto, o estudo de Benigni, Morgan e Lamb, publicado em 2009 no Journal of Small Animal Practice, analisou o aspecto radiográfico do edema pulmonar cardiogênico em 23 gatos.

Vamos conhecê-lo?

O estudo

Os autores revisaram radiografias torácicas de 23 gatos com sinais de insuficiência cardíaca. Dos 23 gatos, 19 eram domésticos de pelo curto e quatro eram de raças orientais. A mediana de idade era de 9 anos. Na apresentação, 91% tinham frequência respiratória aumentada e 70% apresentavam dispneia. Todos tinham aumento do átrio esquerdo, e 87% apresentaram melhora dos sinais respiratórios após tratamento com furosemida, o que sustenta o diagnóstico de edema pulmonar cardiogênico.

Aspecto radiográfico do edema pulmonar cardiogênico em gatos

Em geral, a opacificação pulmonar foi caracterizado por aumento de radiopacidade associada padrões mistos e distribuição variável.

Padrão:

  • 100% dos gatos apresentaram padrão intersticial, descrito como "granulado" ou "reticulado", caracterizado pela redução da visibilização dos vasos pulmonares e da silhueta cardíaca. 
  • 83% dos gatos apresentaram também padrão alveolar, uma minoria com broncogramas aéreos. Dos 13 gatos em que um padrão foi considerado predominante, o padrão alveolar predominou em 12 deles.
  • 70% dos gatos também apresentaram padrão vascular, caracterizado pelo aumento do diâmetro dos vasos pulmonares.
  • 61% dos gatos também apresentaram padrão bronquial, caracterizado pelo espessamento de paredes brônquicas ou infiltrados peribrônquicos, que nesse contexto pode significar a presença de líquido nos tecidos peribrônquicos, e não espessamento verdadeiro da parede brônquica (apesar do diferencial ser necessário).

Distribuição:

  • 61% apresentaram distribuição difusa/não-uniforme, onde todo o pulmão estava afetado, mas de maneira desigual.
  • 39% apresentaram distribuição regional, a maioria ventral, depois caudal e apenas um gato apresentou distribuição hilar.
  • 17% apresentaram distribuição difusa/uniforme, com padrão misto broncointersticial.
  • 17% apresentaram distribuição multifocal
  • 4% (apenas um gato), apresentou distribuição focal.
  • 22% apresentaram distribuição bilateralmente simétrica.

Radiografias controle realizadas em três pacientes em até 36 horas após tratamento, mostraram resolução completa da opacificação pulmonar.

Projeção ventrodorsal de paciente felino com cardiopatia e edema pulmonar cardiogênico. Nota-se aumento das dimensões da silhueta cardíaca, aumento do calibre dos vasos pulmonares e opacificação pulmonar predominantemente alveolar com distribuição regional caudal.

Fases de desenvolvimento do edema e suas implicações radiográficas

Os autores contextualizam a variabilidade dos achados radiográficos com as fases de desenvolvimento do edema pulmonar, descritas em estudos experimentais em cães.

Inicialmente, o líquido de edema extravasa para o tecido ao redor dos vasos pulmonares e brônquios, podendo mimetizar radiograficamente um espessamento de parede brônquica. Há uma tendência de acúmulo inicial na região hilar, embora isso possa ser difícil de reconhecer na radiografia devido à sobreposição com vasos dilatados e o átrio esquerdo aumentado.

Em seguida, o líquido acumula-se nos septos alveolares e interlobulares, que ficam mais espessos, produzindo um padrão intersticial.

Por fim, o líquido extravasa através do epitélio dos ductos alveolares e inunda os alvéolos. Quando um número suficiente de alvéolos é preenchido, o pulmão aparece consolidado, às vezes com broncogramas aéreos, sendo classificado radiograficamente como padrão alveolar.

Conclusão diagnósticos diferenciais

O aspecto radiográfico do edema pulmonar em gatos é altamente variável, sendo frequentemente caracterizado por um padrão misto (intersticial associado a alveolar e/ou brônquico). O padrão bronquial, quando presente, deve ser diferenciado de broncopatias e a opacificação alveolar em região cranioventral deve incluir broncopneumonia entre os diagnósticos diferenciais. Os exames de acompanhamento auxiliam na confirmação do diagnóstico, caso haja redução significativa da opacificação após 12 a 24 horas da instituição do tratamento.


Referência: Benigni L, Morgan N, Lamb CR. Radiographic appearance of cardiogenic pulmonary oedema in 23 cats. Journal of Small Animal Practice (2009) 50, 9–14.

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Autora
MV Alice Chaves Jorge — CRMV-SP nº 53.226

Médica veterinária graduada pela UNESP de Botucatu, com especialização em radiodiagnóstico e residência em diagnóstico por Imagem. Atua em telerradiologia na PetRadio.

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